terça-feira, 8 de setembro de 2009

Veja Curitiba


Há poucas semanas a revista Veja circulou a edição de Agosto com o "Melhor da Cidade". Não li, pois não recebemos a revista, e mesmo que tivesse recebido não sei se teria lido, pois não dou muita bola para a Veja. Mas cavocando a pilha de lixo da Net achei uma matéria que veiculou na Veja em março de 1993, quando Curitiba fazia 300 anos. Não li esse texto ainda, mas vou postar aqui para poder ler depois.

Reportagens



31 de março de 1993
A capital de um
país viável
Curitiba, um paraíso da classe
média, faz 300 anos com a fama de
melhor e mais inovadora cidade do país


Ao percorrer o sul do Brasil, no começo do século passado, o cronista francês Auguste de Saint-Hilaire desaconselhou vivamente seus leitores a visitar o vilarejo que encontrou nas nascentes do Rio Iguaçu. Pareceu-lhe um lugar de prostitutas e ladrões. Em 1880, o imperador Pedro II pernoitou no local, então conhecido como Vila Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. Também não gostou do que viu. "É uma cidade de caipiras", reclamou. Ainda bem que o francês e Sua Majestade não viveram o suficiente para ver o que aconteceu. Hoje, teriam de engolir suas palavras. O lugarejo mudou de nome, cresceu e virou sinônimo de paraíso urbano pelo Brasil e pelo mundo afora.

Pode-se argumentar que uma cidade, por melhor que seja, nunca será um paraíso. Paciência: é assim mesmo que os milhares de novos visitantes de Curitiba costumam se referir a ela. Capital ecológica, cidade-modelo e cidade-laboratório são algumas das expressões empregadas para definir a metrópole brasileira que mais prêmios e elogios colheu no exterior. A antiga Vila Nossa Senhora da Luz dos Pinhais está completando 300 anos esta semana com uma festa de arromba. Um de seus convidados especiais é o tenor espanhol José Carreras, que - para inveja principalmente de cariocas e paulistanos - fará no próximo fim de semana sua única apresentação no Brasil. Carreras vai cantar para 50.000 pessoas em uma antiga pedreira transformada em anfiteatro a céu aberto. Coisa de Curitiba, cidade habituada a converter pedreiras em óperas, paióis de munição em teatros, ruas em shopping centers e ônibus velhos em escolas.

CIDADE QUE FUNCIONA - O aniversário da sexta maior capital brasileira não é uma festa qualquer. É uma celebração da classe média. Nunca o Brasil produziu um reduto de classe média tão numeroso e tão próspero. Com 1,4 milhão de habitantes, quase a mesma população de Porto Alegre e do Recife, a capital paranaense está longe de ter a riqueza de São Paulo, a exuberância do Rio de Janeiro ou a variedade cultural de Salvador. O que a torna diferente entre as grandes capitais é outra peculiaridade: em Curitiba as coisas funcionam. Os curitibanos podem deixar o carro em casa para ir trabalhar, já que há ônibus rápidos e eficientes que os levam a qualquer lugar. As ruas são limpas, a coleta de lixo funciona, não há congestionamento de trânsito nem poluição, os funcionários públicos são educados e nos fins de semana pode-se freqüentar parques, teatros e cinemas sem medo de ser assaltado.

"Curitiba é uma das cidades mais agradáveis que eu já vi em qualquer parte do mundo", surpreendeu-se Arthur Eggleton, ex-prefeito de Toronto, a maior cidade do Canadá, depois de percorrer a capital paranaense no ano passado. "É uma cidade-modelo para o Primeiro Mundo, não apenas para o Terceiro", sustenta Michael Cohen, chefe do departamento de desenvolvimento urbano do Banco Mundial, em uma reportagem de página inteira publicada no ano passado pelo The Wall Street Journal, a bíblia do capitalismo americano. "Se existe uma cidade-modelo para o futuro, ela terá de fazer o que Curitiba está fazendo", completa Albert Appleton, responsável pelo departamento de proteção ambiental da cidade de Nova York.

É errado imaginar que Curitiba seja uma ilha de tranqüilidade num Brasil tumultuado. Chove demais, as calçadas são escorregadias, os motoristas atravessam o sinal vermelho, há favelas na periferia e até meninos de rua pedindo esmolas nas esquinas. Suas virtudes, porém, são imbatíveis. Curitiba é a capital brasileira com maior área verde por habitante, 54 metros quadrados, mais que o triplo do índice recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Tem o melhor sistema de transporte de massa do Brasil e um dos mais eficientes do mundo. Registra o menor número de homicídios e assaltos entre as grandes cidades brasileiras. E, finalmente, sua grande vedete, um sistema de coleta e reciclagem de lixo de causar inveja em qualquer metrópole desenvolvida.

SINAL DE ESPERANÇA - Há dois meses, a revista americana Time, a maior do mundo, publicou uma reportagem de capa sobre as megacidades, como Tóquio, Nova York, São Paulo e Cidade do México, todas com mais de 10 milhões de habitantes. Curitiba mereceu um destaque especial. Apontada como um sinal de esperança em um mundo ameaçado pela desordem e pelo caos urbano, a capital paranaense serviu de contraponto para Kinshasa, capital do Zaire, um aglomerado de favelas no coração da áfrica, com 4 milhões de habitantes, devastado pela fome e pelas doenças. "Kinshasa ou Curitiba?", perguntava a revista. "Qual dessas duas visões do futuro para a população mundial vai prevalecer?"

O futuro da humanidade nos próximos anos será decidido em cidades como Kinshasa e Curitiba. Até o final do século, pela primeira vez na História, haverá mais pessoas vivendo nas cidades que no campo. No Brasil, isso já deixou de ser novidade há muito tempo. O último Anuário Estatístico Brasileiro, divulgado na semana passada pelo IBGE, revela que a população urbana do Brasil cresceu de 67% para 75% na década passada. Há cinqüenta anos, essa proporção era inversa. Sete em cada dez brasileiros viviam no campo. É isso que torna o fenômeno Curitiba ainda mais surpreendente. Em apenas duas décadas a população da cidade triplicou. Inflada pelo êxodo rural, saltou de 500.000 habitantes em 1970 para 1,4 milhão em 1990. Eis o milagre: o aumento da população fez com que Curitiba, em vez de piorar, melhorasse. Vinte anos atrás, com 900.000 moradores a menos, a cidade tinha mais problemas de trânsito, mais poluição e menos área verde que hoje. Quem é o autor do milagre?

PRÊMIOS INTERNACIONAIS - Uma coisa é certa: não foi Jaime Lerner, o prefeito-maravilha, nome infalível em todas as listas de presidenciáveis. Um prefeito sozinho não faz milagre. O arquiteto Jaime Lerner, no entanto, teve um grande papel na transformação de Curitiba. Nas três vezes em que exerceu o cargo de prefeito, ele revolucionou a arquitetura dos edifícios, abriu canaletas exclusivas para ônibus, proibiu os carros de trafegar pelas ruas do centro e as transformou em calçadões para pedestres, plantou árvores e espalhou uma enorme quantidade de parques pela cidade. Lerner não fez nenhuma obra faraônica. Nem viadutos ou metrôs. Suas iniciativas foram singelas, relativamente baratas, e tiveram continuidade. "O segredo de Curitiba é a simplicidade", explica Lerner. "As cidades do futuro não terão nada a ver com os cenários dos filmes de Flash Gordon. Temos de eliminar as soluções grandiosas de nossas cabeças."

Lerner ajudou a transformar Curitiba. E Curitiba o transformou no mais festejado urbanista no mundo inteiro. O programa de reciclagem de lixo rendeu-lhe o prêmio do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas em 1990. No ano passado, ganhou do Instituto Internacional de Conservação de Energia, de Washington, outro prêmio pelo sistema de ônibus expressos de Curitiba, que consome 25% menos combustível que o transporte de massa em cidades do mesmo tamanho. O programa do lixo faz com que em Curitiba até as favelas sejam diferentes. Tome-se o exemplo da favela do Pinto. Situada perto da estação rodoferroviária, ela tem barracos como os de outra favela qualquer, mas as ruas são limpas, têm luz elétrica e, pasme-se, coleta seletiva de lixo. As pessoas coletam o lixo e separam o material orgânico do reciclável por uma boa razão: os sacos com restos de plástico, vidro e papel são trocados pela prefeitura por vales-transporte, cadernos escolares, verduras e legumes. Vinte mil famílias participam dessa troca, chamada de câmbio verde, nas favelas de Curitiba. A coleta seletiva de lixo atinge 95% da capital, muito mais, por exemplo, que em Montreal, no Canadá - com uma população duas vezes maior, separa apenas 10% do lixo. As 750 toneladas de material reciclável coletadas por mês em Curitiba são revendidas às indústrias locais.

Uma das invenções mais recentes de Lerner, o ônibus ligeirinho, já foi testada em Nova York. A eficiência do transporte de massa é, de longe, o sucesso mais celebrado de Curitiba. São 500 quilômetros de linhas, usadas por 75% da população, um índice altíssimo, comparado com os 57% do Rio e os 45% de São Paulo. O ligeirinho é tão eficiente e rápido quanto um metrô, com a vantagem de custar vinte vezes menos. Ele funciona com estações tubulares, nas quais o passageiro paga o bilhete antes de embarcar nos ônibus - como nas estações do metrô -, o que torna o embarque quatro vezes mais rápido. Sua velocidade média é duas vezes maior que a dos ônibus comuns e economiza-se até uma hora de viagem num percurso de 20 quilômetros.

Com a implantação do ligeirinho, o sistema de transporte de massa em Curitiba se tornou tão eficiente que 28% da frota de 500.000 carros particulares da cidade fica nas garagens nos dias de semana. Seus donos acham mais barato e mais cômodo pegar ônibus para ir trabalhar. Resultado: Curitiba gasta 25% menos combustível que outras cidades do mesmo tamanho, como Recife e Belo Horizonte. A tarifa de ônibus em Curitiba é uma das mais caras do país, 8.000 cruzeiros, contra 7.000 em Porto Alegre e em São Paulo. Mas existem compensações. Como o sistema é todo integrado, pode-se tomar quantos ônibus quiser até chegar ao destino pagando uma só vez. Além disso, a prefeitura não gasta nenhum centavo de subsídio. Em São Paulo, com população seis vezes maior, a prefeitura gastava até o final do ano passado 1 milhão de dólares por dia em subsídio para transporte público. "Se eu quisesse, poderia ter a menor tarifa do país, mas Curitiba prefere investir em outras coisas e deixar que o sistema se pague sozinho", diz Lerner. "É um dos melhores do mundo, e as pessoas estão satisfeitas com ele."

SIMPLICIDADE - A proliferação das áreas verdes é outro bom exemplo de simplicidade nas soluções de Curitiba. A cidade tem hoje 1.700 hectares de parques, o equivalente a 4% dos 430 quilômetros quadrados da área urbana. Em vinte anos, a área verde aumentou 100 vezes. Os parques foram surgindo para resolver um outro problema da cidade: as enchentes. Em vez de canalizar os rios, como faz a maioria das cidades brasileiras, Curitiba transformou-os em lagos habitados por patos e marrecos, ao redor dos quais se construíram os parques. Os lagos servem para regular a vazão dos rios e acabaram com as inundações. A rigor, ainda ocorrem enchentes, mas alagam pistas de cooper, ciclovias e trechos de florestas, no lugar de casas e lojas. "Todo rio tem direito de encher", diz o engenheiro Nicolau Klüpel, responsável pelos parques da cidade nas administrações de Lerner. Não por acaso, Klüpel ficou conhecido em Curitiba como "Nicolago".

Outras novidades de Curitiba, num primeiro olhar, podem ser consideradas meramente cosméticas. É o caso da Rua 24 Horas, um shopping de 120 metros de extensão coberto de vidro. Suas 34 lojas funcionam dia e noite e incluem livraria, locadora de vídeo, bares, restaurantes, sorveteria, butique, agência de correio e floricultura. Outro exemplo é a Ópera de Arame, uma construção arrojada, de ferro tubular, vidro temperado e fibra de vidro, encravada na encosta de um bosque, ao lado da pedreira onde o tenor José Carreras irá cantar. A ópera, com 2.400 lugares, ficou pronta em 36 dias (tem um problema inultrapassável: a acústica é ruim).

As modificações, no entanto, não são cosméticas porque visam resolver problemas fundamentais, como é o caso da deterioração do centro da cidade. O Largo da Ordem, núcleo histórico onde nasceu a então Vila Nossa Senhora da Luz dos Pinhais 300 anos atrás, é hoje um movimentado ponto de encontro. O calçadão da Rua Quinze de Novembro, também no centro antigo, é o lugar mais freqüentado pelos turistas e virou cartão-postal da cidade. Perto dali funciona a Rua 24 Horas, lotada a noite inteira durante os fins de semana. Em São Paulo, ao contrário, até a prefeitura foi mudada de lugar, transferida do Ibirapuera para o Parque Dom Pedro II, numa das muitas tentativas de recuperar o centro. Não deu certo. A região central continua tão suja e perigosa quanto antes. No Rio de Janeiro, ocorre a mesma coisa.

ATRAIR PESSOAS - Por que Curitiba conseguiu evitar a degradação dos centros históricos e São Paulo e o Rio não? "Não adianta só mudar a fachada do centro", ensina Lerner. "É preciso estimular atividades e serviços que atraiam as pessoas para a região." No caso de Curitiba, a prefeitura desestimulou a abertura de novas agências bancárias e escritórios. Ruas ocupadas por agências bancárias e escritórios costumam ficar às moscas no final do expediente e atrair mendigos e marginais, como prova a região do centro velho de São Paulo. Em vez de bancos, o centro de Curitiba tem bares, restaurantes, livrarias, teatros, cinemas e, é claro, prédios de apartamentos.

Talvez por isso, numa pesquisa feita com 300 moradores de São Paulo, Rio de Janeiro e Bauru 91% dos entrevistados tenham dito que já ouviram falar bem da cidade e 70% acreditam que lá as condições de vida sejam melhores. A fama de Curitiba no resto do país, demonstrada por pesquisas como essa, é tão boa que algumas empresas paranaenses, como o Bamerindus e o Boticário, procuram associar sua imagem à cidade para melhor vender seus produtos. "O nosso melhor marketing é dizer que somos de Curitiba", diz Sérgio Reis, diretor do Bamerindus. "O fato de o nosso produto ser curitibano agrega um certo carisma para o consumidor de outras regiões", afirma Miguel Krigsner, dono do Boticário.

O urbanismo praticado em Curitiba é o oposto do que gerou Brasília. Seguidores da escola do arquiteto franco-suíço Le Corbusier, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, os pais da capital federal, achavam que as cidades do futuro deveriam separar e concentrar suas funções em locais diferentes. De um lado, palácios, ministérios, a catedral, os edifícios do poder. De outro, os apartamentos, as escolas, os shoppings e os supermercados. Em Curitiba se fez exatamente o contrário: misturou-se tudo. Enquanto Le Corbusier, Niemeyer e Lúcio Costa adoravam conjuntos verticalizados e padronizados, dos quais os blocos das superquadras de Brasília são o exemplo mais eloqüente, em Curitiba aboliram-se até mesmo os conjuntos residenciais padronizados. Os conjuntos habitacionais existem, mas são pequenos, bem distribuídos pela cidade e possuem casas diferentes umas das outras. O resultado é que a paisagem urbana não exibe contrastes tão chocantes entre um bairro habitado por milionários e outro, de pessoas remediadas.

HABITAT - É preciso reconhecer o talento de Lerner e o seu talhe para prefeito. Mas convém avaliá-lo no conjunto de circunstâncias que o produziram. "O fenômeno Lerner encontrou em Curitiba o seu habitat", diz o jornalista e advogado Nireu Teixeira, chefe de gabinete da prefeitura nas três administrações de Jaime Lerner. Em outras palavras: Lerner reformou uma cidade que estava pedindo uma reforma. A colonização dos imigrantes alemães, italianos, russos e poloneses, no começo do século, apagou de vez do mapa a antiga vila de mineradores abominada por Saint-Hilaire e dom Pedro II. Na paisagem e no estilo de vida, Curitiba tornou-se a mais européia de todas as capitais brasileiras. A cultura dos imigrantes está de tal forma arraigada que os curitibanos não comem cachorro-quente. Comem pão com vina, um derivativo de wienerwurst, nome de salsicha em alemão. "Os imigrantes produziram uma salada cultural que nada tem em comum com o resto do país", diz o escritor e crítico de literatura Wilson Martins, autor do livro Um Brasil Diferente, uma obra clássica sobre a colonização do Paraná. "Aqui floresceu a cultura da classe média, onde os muito milionários são tão escassos quanto os muito pobres."

Antes do aparecimento de Lerner, Curitiba já havia criado, em 1912, a primeira universidade brasileira e tinha o Teatro Guaíra, escala obrigatória de todas as grandes companhias de dança e teatro. Ao assumir a prefeitura pela primeira vez, em 1971, nomeado pelo então governador Haroldo Leon Peres, Lerner encontrou já pronto o ingrediente básico da receita urbana que faria sucesso em Curitiba. Era o plano diretor da cidade, criado em 1965. O plano, calçado em uma lei do uso do solo, impediu que a explosão imobiliária se concentrasse em dois ou três bairros, como ocorre hoje na maioria das grandes cidades. A principal virtude desse plano foi domar o crescimento da cidade. Em vez de crescer para cima e sobrecarregar a infra-estrutura, as casas e os prédios foram construídos ao longo de eixos integrados pelo sistema de transporte de massa, as chamadas vias estruturais por onde correm hoje o ligeirinho e os ônibus expressos de Lerner.

TIPO ORGULHOSO - A imigração e a origem dos moradores da cidade obviamente não explicam tudo. Fosse assim, as cidades catarinenses de Joinville e Blumenau, colonizadas por alemães, seriam tão boas quanto Curitiba. Em vez disso, ambas têm sérios problemas de trânsito, enchentes e poluição industrial. É provável que nas mãos de Fernando José, ex-prefeito de Salvador, que deixou o cargo odiado pela população, nada tivesse dado certo em Curitiba. Mas também não há razão alguma para acreditar que administradores como Marcelo Allencar ou Olívio Dutra fracassassem em Curitiba. A grande diferença entre Jaime Lerner e os demais bons prefeitos é que ele não se limita a administrar bem a cidade: ele é um transformador da paisagem urbana.

O ingrediente mais fundamental dessa receita, no entanto, é o próprio curitibano, um tipo orgulhoso de sua cidade. "Aqui é o melhor lugar do mundo", exagera o contador Waldemar Tomeleri, casado, pai de duas adolescentes. A família Tomeleri é um retrato fiel da cidade. Os dois carros, um Voyage 86 e um Prêmio novo, ficam na garagem a semana inteira. "Vou trabalhar de ônibus porque é mais barato e eu chego mais rápido", diz Waldemar. As duas filhas estudam em escolas particulares e também andam de ônibus. Todo o lixo doméstico é selecionado. Nos fins de semana, a família passeia pelas ciclovias da cidade, que têm mais de 100 quilômetros.

Cabe aqui um outro contraponto. Uma pesquisa recente com moradores de classe média da suja e perigosa Nova York revelou que 60% dos entrevistados sonham em se mudar para outras cidades. Em Curitiba, uma pesquisa semelhante constatou que 99% dos moradores não pensam em sair de lá por razão alguma. Ao contrário, a fama de Curitiba tem é atraído executivos e profissionais liberais de outros Estados. "Recebo entre oito e dez currículos todos os dias", conta o empresário De Bernt Entschev, dono de um escritório de consultoria que faz recrutamento de executivos para empresas paranaenses. A metade desses currículos vem do Rio de Janeiro e de São Paulo. A maioria dos candidatos já possui emprego, mas eles declaram que gostariam de se mudar para Curitiba para ter uma qualidade de vida melhor. Um caso exemplar é o do empresário Jorge Eduardo MacDowell Gonçalves. Em 1991, ele morava no Rio com a família quando o escritório de sua mulher, Valquíria, foi assaltado. Ela foi amordaçada e trancafiada num armário durante uma hora, enquanto os ladrões saqueavam a empresa. Apavorado, Jorge transferiu a família para Curitiba, continuou a trabalhar no Rio por algum tempo e, no final do ano passado, mudou também sua empresa de cidade. "Daqui eu não saio mais", garante.

Existe uma contradição que persegue as cidades com boa qualidade de vida. Por serem boas, elas atraem mais moradores. O aumento da população resulta em novos problemas urbanos, como a especulação imobiliária e as favelas. Pode-se imaginar que Curitiba, ao se tornar internacionalmente famosa pelas suas virtudes, esteja correndo esse risco mais que qualquer outra cidade brasileira. Não é bem assim. A bomba demográfica que ameaçava a capital paranaense já foi desativada. Era o êxodo rural, fenômeno provado pela troca da cultura do café pelas lavouras mecanizadas de soja e trigo. Entre 1970 e 1985, cerca de 1,5 milhão de colonos paranaenses migrou para a periferia das grandes cidades ou para as novas fronteiras agrícolas da Amazônia. Foi isso que triplicou a população de Curitiba nas últimas duas décadas. A cidade conseguiu suportar o golpe e o êxodo rural acabou. O interior do Paraná, hoje pontilhado por cidades ricas e prósperas como Londrina, Maringá e Cascavel, deixou de ser uma região exportadora de migrantes. Outro ponto a favor de Curitiba nesse caso é que a cidade, com seu crescimento estabilizado, já não oferece oportunidades de emprego para mão-de-obra pouco qualificada. Em vez de peões da construção civil, atrai hoje executivos e profissionais liberais.

URBANISMO DE RESULTADOS - Transformada pelo urbanismo de resultados de Jaime Lerner, a Curitiba dos anos 90 é uma cidade conservadora nos costumes e avançada na produção cultural. Que outra cidade daria a maior votação colhida pelo candidato Afif Domingos no primeiro turno da eleição de 1989? Essa mesma cidade produz hoje a revista Gráfica, do artista gráfico Miran, considerada a melhor do Brasil em sua área. Produz também o Nicolau, editado pelo escritor Wilson Bueno, um tablóide mensal muito prestigiado entre intelectuais e escritores em todo o país.

O último censo do IBGE revela que 4,59% dos curitibanos das classes A e B freqüentam regularmente o teatro, o dobro do índice médio, 2,28%, da mesma camada social em todo o Brasil. Isso deu a Curitiba a fama de cidade-teste para grandes produções culturais. Nos seus palcos estrearam peças como Rasga Coração, O Grande Circo Místico e Antígona, que depois fizeram sucesso em circuito nacional. Alguns críticos acham que o gosto cultural da cidade se mede mais pela quantidade que pela qualidade. "Curitiba é classe média em tudo, até no nível intelectual", alfineta Wilson Martins. "Aqui as pessoas lotam os teatros para assistir a Shakespeare e Beethoven em consideração a Shakespeare e a Beethoven, não porque acreditam que o espetáculo seja realmente bom. Goethe e Bela Bartók já não fazem tanto sucesso." O jornalista e crítico Aramis Millarch, pesquisador de música popular brasileira, falecido no ano passado, tinha uma opinião semelhante a respeito do gosto cultural dos curitibanos. "O público de Curitiba não é exigente nem culto", dizia ele. "Nos Estados Unidos, as grandes companhias apresentam-se primeiro a inofensivos públicos para depois, com espetáculos bem azeitados, correr o grande circuito."

A festa dos 300 anos da cidade parece conspirar contra as opiniões de Martins e Aramis. Ou, pelo menos, serve para reforçar a idéia de que o urbanismo inovador de Curitiba mudou mesmo a cabeça das pessoas. O festival de teatro da cidade teve lotação esgotada durante as duas semanas. Entre as dezesseis peças apresentadas havia uma de Gerald Thomas e outra de August Strindberg, ambos autores considerados "difíceis", de pouco apelo popular. Em 1991, o monólogo Werther, do alemão Goethe, um clássico do romantismo alemão, ficou dois meses em cartaz na cidade, sempre com casa cheia.

Essa Curitiba, a de gosto cultural mais refinado, a do urbanismo revolucionário e da boa qualidade de vida, é cada vez menos parecida com uma outra, a que ficou célebre nos contos sombrios de Dalton Trevisan, o seu mais famoso escritor. Um dos textos mais recentes de Trevisan, o "Vampiro de Curitiba", é um manifesto antimarqueteiro contra Lerner e a Curitiba dos acrílicos e calçadões:


Que fim ó Cara você deu à minha
cidade a outra sem casas demais sem carros
demais sem gente demais
ó Senhor sem chatos demais.
A seguir, o Vampiro enumerava,
em tom de ressalva,
sua principal queixa:
Quem sabe até uma boa cidade
ai não chovesse tanto assim
chove pedra das janelas do céu
chove canivete nos telhados
chovem mil goteiras na alma.
A reclamação é procedente. Curitiba, uma das cidades mais úmidas e frias do Brasil, já fez muita coisa nos últimos anos. Mas quem vai fazer a chuva parar? Isso, nem Jaime Lerner.



O Chinês colecionador de idéias

O balconista que virou presidenciável

A revista americana Time o comparou a um Walt Disney com preocupações sociais. Quem mais, senão Jaime Lerner, teria a idéia de aproveitar ônibus velhos para transformá-los em escolas ambulantes, onde crianças aprendem mecânica, datilografia e corte e costura? Parece brincadeira, mas dá certo. As escolas ambulantes, chamadas de linhas do ofício, já formaram 32.000 novos profissionais em Curitiba. O melhor é que elas não custam nada para a prefeitura. Tanto os ônibus, salvos de virar sucata, como os professores são fornecidos por empresas da cidade que, depois, contratam os alunos como estagiários.

Essas e outras idéias saem do caderninho que o ex-prefeito carrega o tempo todo. Ali, em forma de garatujas, ele vai anotando tudo o que lhe vem à cabeça. Algumas coisas são extravagantes, como uma bicicleta futurística dotada de proteção contra sol e chuva. Outras têm o lampejo da genialidade, como o projeto do ônibus ligeirinho. "Ele não desperdiça nenhuma idéia, por mais absurda que seja", conta o jornalista Jaime Lechisnky, assessor de imprensa do ex-prefeito. "Curitiba é uma causa comum", propagandeia Lerner, a quem os amigos chamam de "Chinês" devido aos olhos apertados. "As pessoas aqui se sentem respeitadas pelo poder público e assumem responsabilidades comunitárias."

AR BONACHÃO - Aos 54 anos, casado há 27 com Fanny, pai de duas filhas já moças, esse arquiteto de ar bonachão, parceiro de Vinicius de Moraes em uma letra de música, é um self-made man curitibano. Começou a vida vendendo tecido atrás do balcão da loja do pai, um imigrante judeu-polonês. Cursou a faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Paraná, fez estágio na França e, na volta, dirigiu o instituto de planejamento urbano de Curitiba, o IPPUC. Em 1971, aos 33 anos, foi escolhido prefeito biônico de Curitiba porque o então governador, Haroldo Leon Peres, queria no comando da capital um técnico que não lhe fizesse sombra. Leon Peres, apeado do cargo por corrupção, não imaginou que, vinte anos mais tarde, Lerner seria capaz de ofuscar todas as demais lideranças políticas paranaenses.

De técnico eficiente, Lerner tomou gosto pela política. Na primeira eleição direta que disputou, em 1985, perdeu por 10.000 votos para o atual governador Roberto Requião, seu maior inimigo na política estadual. Deu o troco em 1988, derrotando Maurício Fruet, candidato de Requião, ao fim de uma campanha que durou apenas doze dias. No ano passado, elegeu seu candidato, o deputado Rafael Greca, com 52% dos votos, logo no primeiro turno da eleição. Deixou o cargo com 92% de aprovação dos eleitores, índice de popularidade recorde entre os prefeitos das capitais. Entre as elites, o nome de Lerner é uma esperança para o pleito presidencial de 1994. Lerner bem que gostaria de ser presidente. Terá antes de se haver com Leonel Brizola, o cacique-mor do PDT, um eterno candidato à Presidência. Lerner jura que não quer sair do PDT de jeito nenhum.

http://veja.abril.com.br/arquivo_veja/capa_31031993.shtml

3 comentários:

Otavio Augusto disse...

A pergunta é: o que deu errado?

Harry disse...

Acho que o problema foi que o Brasil piorou muito e com isso todos nós estamos sofrendo. Essa matéria já tem 16 anos e naquele tempo o Rio, SP, BH, Curitiba, Porto Alegre... o Brasil todo era mais seguro.
Outra coisa que não foi previsto na reportagem é que em 16 anos o número de carros em circulação no Brasil seria tão grande. Hoje Curitiba tem a maior frota nacional, em termos relativos, e isso acaba com qquer sistema de transporte, tupinikin ou Tingui.

Otavio Augusto disse...

hmmm... a segunda pergunta é: esses problemas de 93-09 são maiores do que os de 77-93? Se não são, qual foi a diferença na administração da cidade?

PS: o blog continua legal!